Sobre o tempo

Rege a lenda de que uma tal de Pandora abriu um caixa deixando vazar todos os sentimentos deixando somente preso lá dentro a esperança. E se eu me atrevesse a dizer que na verdade não soboru nada?

A um tempo a fé me abandonou.

Porque em algum momento você para e pensa nas coisas que você realizou e com 21 anos eu não fiz absolutamente nada, nem sequer plantar um feijão no algodão eu fiz. Enquanto fumo meu cigarro observo do prédio que há varredores de rua. A quanto tempo não via um. Lembrei que li uma coisa a respeito deles, sobre serem os reis da rua e desempenhar a importante função de deixar as ruas mais limpas e consequentemente mais lindas. Eu penso comigo como esses lixeiros são importantes. Enfâse para uma conversa com o Fabricio.

“Quando eu disse que era uma pessoa sozinha eu não referi a estar com alguém. Eu falava de ser realmente sozinha. Para e pensa comigo, além do meu pai, quais, de todas as pessoas que eu tenho fariam alguma coisa por mim?”

É claro, ele não conseguiu pensar em ninguém. Não houve sequer uma pessoa da qual a memória dele atentasse e a minha também. Busquei uma lembrança de quando foi a última que eu recebi um telefonema de alguém que queria saber se estava tudo bem comigo, também não achei. Não me recordei sequer da última vez que eu recebi um e-mail de alguém que tinha tal preocupação antes que eu fizesse isso (com exceção do Caleb que usa de pretextos para perguntar se tá tudo ok, um querido).

A verdade é que eu não cultivei absolutamente nada nesses 21 anos, não conquistei nada, não mudei o mundo como eu projetei aos 6 anos de idade, não pintei um quadro abstrato como planejei aos 12, e não consegui uma coleção considerável de HQ’S como desejei aos 19. E pior que isso, distrui carros, entreguei meu pulmão ao diabo, troquei um coração por um figado e achei que estava lucrando, deixei as pessoas mais especiais irem embora (eu fiz as pessoas mais especiais irem embora). Gostaria de atentar ao fato de que o texto trata mais de uma irônia, porque falta aqui a ausência do elemento dramático, a dor. Enfâse no diálogo com o Luis.

“Eu pretendo parar de fumar. E eu parei de tomar Coca. Procurando soluções saudáveis porque o plano é viver mais.”

Agora eu repenso a resposta, e me atrevo a dizer que por mais sincera que tenha sido a informação eu menti. Naturalmente os remédios controlados, o excercício, a alimentação correta, o sono regulado tem muito mais haver com não deixar transparecer o meu desleixo e o meu desinteresse por um vida longa, a minha completa falta de perspectiva. E se de repente eu começo a fazer tudo correto, nada mais é porque talvez nem toda fé esteja perdida e eu acredito que em algum lugar do Paraiso, se é que Deus existe ele vai visualizar minha prontidão e minha vida regrada e me beneficiar com uma passagem mais rápida dessa pra melhor.

O que torna tudo isso repugnante é o fato de hoje, tudo isso não me parecer um problema. Quando foi que a indiferença tomou conta de mim?

Aos 22 pode ser que alguma coisa mude, pode ser que não…

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